Morcega

domingo, 17 de dezembro de 2017

As crônicas de Nila: um
dezembro 17, 20170 Comments

Fazia tempo que eu não a via e, preciso dizer, achei uma ironia desgraçada que ela aparecesse justo hoje, quando ainda era dia e já era noite, quando as gotas pesadas levantavam fumaça quente do asfalto e carregavam almas perdidas.

Meu pai passou por ela e acenou. Ela não reagiu. Ficou como sempre ficava: apática, sem estar realmente ali. Uma assombração. Como eu queria que ela sumisse para sempre.

- O que você está fazendo aqui? - perguntei, olhando para seu rosto pálido e sem expressão.

Ela deu de ombros. Não se importava com nada.

Olhar para ela me dá ânsia, embrulha meu estômago. Seu jeito de andar é irritante. Seu cheiro me atinge de uma forma incômoda, não realmente perigosa, mas como um alfinete esquecido na roupa, que está ali para pinicar sem dar aviso.

- Eu só mostro a verdade, você sabe - Nila enfim falou.

Era mentira, eu sabia disso, mas sempre existia uma raiz teimosa que não dava pra arrancar, e que permitia que ela tivesse esse poder idiota, mesmo que por tão pouco tempo. Esse pouco tempo é uma eternidade. Quando estou dentro desses segundos, eu lembro do quanto eu gosto de não estar neles. E preciso respirar fundo.

É então que aguento firme e forço minha saída.

Nila desaparece.

Sei que não é pra sempre, talvez, no fundo, sem que eu saiba, nem quero que seja.

Mas para o momento, é a paz mundial.

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domingo, 3 de dezembro de 2017

Eu beijo as estrelas
dezembro 03, 20170 Comments

Se eu falasse pra mim mesma do passado o que aconteceria, eu de agora levaria um tapa na cara, pois eu do passado não aceitaria de jeito nenhum. Sairia pelas ruas, desolada, ouvindo músicas tristes e me apegando a cada momentinho, guardando no fundo da memória para caso eu do futuro estivesse certa, o que era impossível, porque eu do passado jamais deixaria aquilo acontecer.


Eu beberia pra esquecer, me mataria pra lembrar, entraria no colapso que eu realmente entrei. E então veria toda minha vida mudar. De cabeça pra baixo, de trás pra frente, do avesso. E eu sofreria tanto, tanto, tanto. Passaria as noites chorando, passaria as noites olhando para as estrelas e perguntando "por quê? por que vocês me abandonaram?" mesmo que elas continuassem brilhando no mesmo lugar de sempre.

Eu pensaria "não vou mais beijar as estrelas, elas não me escutaram". Nem eu escutava o que eu mesma dizia, porque não era sobre o que eu falava, e sim sobre o que eu sentia. Naquela ânsia de achar um caminho, eu me perdi de mim mesma, e de repente eu virei uma criança que por um descuido deixou o balão sair voando, sozinho, pra longe, pra muito longe, pra onde não dava mais pra ver.

Se eu falasse pra mim mesma do passado que eu renasceria das cinzas, sairia da lama, levantaria da queda com minhas próprias pernas calejadas de tanto cair, eu de agora levaria um tapa na cara, porque eu do passado não tinha como saber o que existia dentro de mim mesma. Agora eu sei. E antes de dormir eu beijo as estrelas e beijo e beijo porque elas continuaram lá brilhando no mesmo lugar.
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@m0rcega