As crônicas de Nila: um - Morcega

domingo, 17 de dezembro de 2017

As crônicas de Nila: um

Fazia tempo que eu não a via e, preciso dizer, achei uma ironia desgraçada que ela aparecesse justo hoje, quando ainda era dia e já era noite, quando as gotas pesadas levantavam fumaça quente do asfalto e carregavam almas perdidas.

Meu pai passou por ela e acenou. Ela não reagiu. Ficou como sempre ficava: apática, sem estar realmente ali. Uma assombração. Como eu queria que ela sumisse para sempre.

- O que você está fazendo aqui? - perguntei, olhando para seu rosto pálido e sem expressão.

Ela deu de ombros. Não se importava com nada.

Olhar para ela me dá ânsia, embrulha meu estômago. Seu jeito de andar é irritante. Seu cheiro me atinge de uma forma incômoda, não realmente perigosa, mas como um alfinete esquecido na roupa, que está ali para pinicar sem dar aviso.

- Eu só mostro a verdade, você sabe - Nila enfim falou.

Era mentira, eu sabia disso, mas sempre existia uma raiz teimosa que não dava pra arrancar, e que permitia que ela tivesse esse poder idiota, mesmo que por tão pouco tempo. Esse pouco tempo é uma eternidade. Quando estou dentro desses segundos, eu lembro do quanto eu gosto de não estar neles. E preciso respirar fundo.

É então que aguento firme e forço minha saída.

Nila desaparece.

Sei que não é pra sempre, talvez, no fundo, sem que eu saiba, nem quero que seja.

Mas para o momento, é a paz mundial.

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@m0rcega